Projeto em Cubatão une sustentabilidade, empreendedorismo e protagonismo feminino ao reaproveitar materiais e fortalecer a geração de renda na comunidade
Na Vila dos Pescadores, em Cubatão, linhas, tecidos e máquinas de costura ajudam a contar uma história que vai muito além da produção de roupas. No Ateliê da Maré, mulheres da comunidade encontram na costura criativa uma oportunidade de aprender, produzir coletivamente e construir caminhos para geração de renda e autonomia.
No dia 5 de agosto de 2026, a equipe do projeto Economia Sustentável visitou o Ateliê da Maré, onde conversou com Marly, liderança comunitária e idealizadora da iniciativa, e conheceu de perto o trabalho das mulheres que atuam na produção e na organização do espaço.
Ligado ao Instituto Socioambiental e Cultural da Vila dos Pescadores (ISAC-VP), o Ateliê nasceu a partir das ações do projeto Pescadores de Histórias, realizado pelo Instituto em parceria com a Petrobras. Sua construção envolveu oficinas de costura criativa, meio ambiente, empreendedorismo e gestão de negócios sustentáveis.
O resultado foi a criação de um espaço comunitário de produção e, posteriormente, da Moda Uçá, que é a marca desenvolvida pelas próprias participantes e inspirada em um dos habitantes mais característicos dos manguezais da região: o caranguejo-uçá.
Mas a relação com o território não fica apenas no nome. A proposta da marca é trabalhar com o conceito de upcycling, reaproveitando materiais e peças que poderiam ser descartados para produzir novas roupas. Uniformes utilizados em atividades industriais da região, jeans e outros tecidos ganham novos formatos pelas mãos das costureiras.
A iniciativa combina, assim, três questões importantes para a comunidade e que também estruturam o projeto Economia Sustentável: solidariedade, sustentabilidade e geração de renda.
De acordo com informações obtidas na visita, muitas das participantes são mulheres que enfrentam situações de vulnerabilidade social e precisam conciliar trabalho, cuidado dos filhos e outras responsabilidades familiares.
Mais do que ensinar a costurar, o Ateliê cria condições para que esse conhecimento possa se transformar em atividade econômica. Formação, produção, criação de produtos, desenvolvimento de marca, precificação e comercialização são experiências concretas.
Uma história construída por mulheres
À frente dessa trajetória está Marly Vicente da Silva, presidente do ISAC-VP e uma das mais conhecidas lideranças comunitárias da Vila dos Pescadores.
Nascida em Recife, filha de mãe costureira e pai pescador, Marly chegou à Baixada Santista na década de 1970 e se mudou para a Vila dos Pescadores em 1979. Ao longo das décadas, participou da organização da comunidade, criou um Clube de Mães e esteve envolvida na construção da Associação Comunitária da Vila dos Pescadores.
A experiência de organizar mulheres e buscar alternativas para melhorar as condições de vida da comunidade atravessa, portanto, boa parte de sua trajetória. No Ateliê da Maré, essa história encontrou uma nova forma de expressão.
Em 2025, Marly foi uma das personalidades reconhecidas pela Prefeitura de Cubatão com o Prêmio Zumbi dos Palmares. Na homenagem, o município destacou justamente seu trabalho como empreendedora social e a capacidade do Ateliê de gerar renda, acolhimento e autoestima para mulheres da comunidade.
Orgulho que ultrapassa as fronteiras da Vila
A produção das mulheres da Vila dos Pescadores já ganhou visibilidade fora da comunidade.
Marly contou, com orgulho, que na posse da atual administração municipal, em janeiro de 2025, a vice-prefeita Andrea Castro utilizou uma peça confeccionada pelo Ateliê da Maré. O vestido reunia referências ao guará-vermelho, ao manguezal, à Serra do Mar, às indústrias e à própria comunidade, transformando elementos da identidade cubatense em moda.
Meses depois, um desfile das peças produzidas pelo Ateliê abriu a programação do Mês da Mulher promovida pela Prefeitura. A iniciativa também passou a integrar outros eventos da cidade.
São espaços importantes não apenas para divulgar produtos. Ao colocar as mulheres da Vila dos Pescadores e suas criações em evidência, o Ateliê ajuda a construir outro olhar sobre o território — baseado em suas capacidades, conhecimentos e potencialidades.
A experiência mostra que iniciativas de geração de renda podem nascer justamente daquilo que uma comunidade já possui: conhecimento, criatividade, memória, cultura, capacidade de organização e disposição para trabalhar coletivamente.
Na Vila dos Pescadores, o tecido que poderia ser descartado ganha uma nova vida. E, junto com ele, mulheres encontram possibilidades de transformar conhecimento e trabalho em renda, autonomia e reconhecimento.
É uma experiência que ajuda a materializar uma pergunta fundamental para o desenvolvimento comunitário: quantas oportunidades podem surgir quando as riquezas e os conhecimentos existentes dentro de um território passam a ser reconhecidos e organizados pelos próprios moradores?




